domingo, 11 de janeiro de 2026

Web Semântica e Linked Open Data (LOD): A Transformação do Registro em Grafo de Conhecimento

O argumento central que sustenta a adoção da Web Semântica e dos Dados Ligados (Linked Open Data - LOD) na Biblioteconomia é a falência técnica do modelo de catalogação baseado em registros isolados (o formato MARC). Por décadas, as bibliotecas criaram "ilhas de informação": registros bibliográficos que, embora completos, não eram compreendidos pelos motores de busca da web comercial (como o Google). O argumento técnico contemporâneo é que a biblioteca deve converter seus acervos em Grafos de Conhecimento, utilizando o padrão Resource Description Framework (RDF).

Isso significa que um livro não é mais apenas uma linha em uma base de dados, mas um conjunto de relações (triplas) que conectam autor, assunto, local e data a outras bases de dados globais (como o Wikidata ou o VIAF). A Biblioteconomia deixa de ser uma atividade de inventário local para se tornar uma engrenagem na infraestrutura de dados abertos e conectados da humanidade.

A primeira linha de raciocínio foca na Interoperabilidade Global e na Autoridade de Dados. No modelo tradicional, se dez bibliotecas catalogam o mesmo autor, elas criam dez registros diferentes que podem conter variações no nome. Com os Dados Ligados, utiliza-se o conceito de URIs (Uniform Resource Identifiers) para identificar entidades de forma única e persistente. O argumento é de consistência sistêmica: ao apontar para um identificador único, a biblioteca garante que sua informação seja vinculada automaticamente a biografias, bibliografias e contextos geográficos em tempo real. O bibliotecário de catalogação evolui para um curador de ontologias, gerenciando vocabulários controlados que permitem que máquinas "entendam" que "Machado de Assis" é a mesma entidade em qualquer idioma ou sistema. Isso potencializa a descoberta de recursos de forma exponencial, permitindo buscas complexas que cruzam dados de diferentes instituições sem a necessidade de migrações manuais de bases de dados.

Em segundo lugar, a implementação de padrões como o BIBFRAME (Bibliographic Framework) — o sucessor do MARC21 — permite que a biblioteca ocupe o espaço da Web de Dados. O argumento estratégico é que as bibliotecas possuem o que a internet mais precisa hoje: dados curados, confiáveis e estruturados. Ao publicar seus catálogos como Linked Open Data, a biblioteca alimenta assistentes virtuais, sistemas de inteligência artificial e ferramentas de pesquisa acadêmica com informações de alta qualidade. Isso inverte o fluxo de tráfego: em vez de esperar que o usuário vá ao site da biblioteca, a biblioteca "vai" até o usuário, aparecendo em Knowledge Panels do Google ou em referências automáticas da Wikipédia. A visibilidade do acervo deixa de depender de um portal próprio e passa a depender da inteligência com que os dados são expostos na rede.

Além disso, a Web Semântica impõe um desafio de atualização técnica da força de trabalho. O argumento aqui é de rebranding profissional: o bibliotecário que domina SPARQL (linguagem de consulta para RDF), ontologias e ontologias de domínio torna-se um profissional essencial para qualquer organização que lide com grandes volumes de informação não estruturada. Isso abre frentes de atuação em áreas como o jornalismo de dados, o e-commerce de alta complexidade e a gestão de conhecimento corporativo. A catalogação deixa de ser uma tarefa clerical e burocrática para ser uma função de arquitetura de significados, onde o foco é criar pontes lógicas entre fragmentos de informação dispersos pelo mundo digital.

Concluindo, a transição para Linked Open Data é a única forma de garantir a relevância das bibliotecas no ecossistema da inteligência artificial e do Big Data. Sem dados conectados, o conhecimento das bibliotecas permanecerá invisível e subutilizado. As instituições que abraçarem a semântica digital transformarão seus catálogos em infraestruturas vivas, capazes de alimentar a próxima geração de aplicações inteligentes e garantir que a informação confiável seja a espinha dorsal da web do futuro.

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