O argumento central que sustenta a Biblioteconomia Social no contexto das Fake News é que o acesso à informação, por si só, não é mais um indicador de progresso; pelo contrário, o excesso de informação sem filtro tornou-se uma ferramenta de desestabilização social. O argumento técnico é que a biblioteca deve evoluir de um "provedor de acesso" para um "filtro de autoridade" e um centro de treinamento em Literacia Midiática e Informacional (MIL).
Em um mundo onde algoritmos de redes sociais priorizam o conflito em detrimento da veracidade, o bibliotecário é o profissional tecnicamente capacitado para ensinar o cidadão a avaliar a proveniência, o viés e a integridade de uma fonte. A biblioteca deixa de ser um local neutro para se tornar uma infraestrutura ativa de resistência contra a erosão da verdade.A primeira linha de raciocínio foca na Competência em Informação (Information Literacy) de Segunda Geração. No passado, ensinar competência em informação significava mostrar como usar uma base de dados ou uma enciclopédia. Hoje, o argumento é de sobrevivência cognitiva: o bibliotecário deve capacitar o usuário a identificar deepfakes, entender como o viés algorítmico molda suas bolhas de informação e como verificar a veracidade de imagens e documentos digitais. O bibliotecário atua como um mediador de Checagem de Fatos (Fact-Checking), utilizando ferramentas de investigação digital e bancos de dados de reputação para desconstruir narrativas falaciosas. Isso transforma a biblioteca em um "Laboratório de Verdade", onde a técnica biblioteconômica de avaliação de fontes é aplicada ao caos das redes sociais, fornecendo ao cidadão o "escudo" intelectual necessário para navegar no ambiente digital sem ser manipulado.
Em segundo lugar, a Biblioteconomia Social exige o Engajamento Político com Minorias e Grupos Vulneráveis. O argumento estratégico é que a desinformação atinge de forma mais agressiva aqueles que possuem menor capital informacional. A biblioteca deve, portanto, atuar na Justiça Restaurativa da Informação, curando e destacando vozes, documentos e histórias que foram marginalizados pelos algoritmos comerciais. Isso envolve a criação de acervos de contra-narrativas e a preservação da memória local de comunidades que sofrem apagamento histórico. O bibliotecário não é apenas um organizador; ele é um curador de relevância social, garantindo que a biblioteca funcione como um contraponto ético às plataformas de Big Tech, priorizando a diversidade e a profundidade em vez do clique fácil e da polarização.
Além disso, o combate à desinformação impõe à biblioteconomia o desafio da Ética na Inteligência Artificial. À medida que sistemas de IA generativa produzem conteúdos que mimetizam a autoridade humana, o bibliotecário deve atuar na curadoria de modelos de linguagem e na verificação de "alucinações" dessas tecnologias. O argumento técnico é que a biblioteca deve ser o local onde se ensina a "Engenharia de Prompt Ética" e onde se audita a transparência das fontes utilizadas por esses sistemas. O profissional da informação assume a função de auditor de algoritmos, garantindo que as ferramentas de busca da biblioteca não repliquem preconceitos raciais, de gênero ou de classe embutidos nos dados de treinamento.
Concluindo, a Biblioteconomia Social representa a face mais humanista e, ao mesmo tempo, mais urgente da profissão. Em uma era de pós-verdade, a neutralidade da biblioteca é cumplicidade. As instituições que se limitarem à custódia de acervos ignorando a guerra informacional lá fora serão cúmplices do empobrecimento intelectual da sociedade. As bibliotecas que assumirem o papel de Hubs de Vigilância Epistêmica serão as instituições fundamentais para a reconstrução da confiança social e para a proteção da democracia na era digital.
Nenhum comentário:
Postar um comentário