domingo, 11 de janeiro de 2026

Competência em Informação (Information Literacy): A Biblioteconomia como Pilar da Soberania Intelectual

O argumento central que sustenta a Competência em Informação (ou Metaliteracia) como a missão última da Biblioteconomia moderna é que o empoderamento do cidadão na sociedade do conhecimento não depende do acesso físico ao dado, mas da capacidade crítica de processá-lo. Na era da infodemia, onde a desinformação é estrutural e os algoritmos de recomendação criam câmaras de eco paralisantes, o bibliotecário deve atuar como um educador político-tecnológico. O argumento técnico é que a competência em informação é o único mecanismo capaz de transformar um consumidor passivo de conteúdos em um produtor ético e um avaliador autônomo de evidências.

A biblioteca, portanto, deixa de ser um depósito de respostas para se tornar um laboratório de perguntas, onde se ensina a desconstruir a autoridade da fonte e a entender as engrenagens ocultas da produção e distribuição do saber.

A primeira linha de raciocínio foca na Transição da Literacia Funcional para a Literacia Crítica e Algorítmica. No passado, a competência em informação limitava-se a ensinar o uso de índices e bases de dados. Hoje, o argumento é de defesa cognitiva: o bibliotecário deve capacitar o usuário a compreender o "viés da máquina". Isso envolve explicar como os modelos de negócio das Big Techs influenciam os resultados de busca e como a economia da atenção manipula a percepção da realidade. O bibliotecário utiliza modelos pedagógicos avançados, como o SCONUL Seven Pillars ou o ACRL Framework, para desenvolver no indivíduo a habilidade de avaliar a informação em múltiplos contextos — desde a validade científica de um artigo até a intenção política por trás de um vídeo viral. A biblioteca torna-se a instituição que garante que a tecnologia seja uma ferramenta de libertação, e não de controle.

Em segundo lugar, a competência em informação é o motor da Inclusão Social e da Empregabilidade na Economia Digital. O argumento estratégico é que a desigualdade no século XXI é, fundamentalmente, uma desigualdade de competências informacionais. O bibliotecário atua na "última milha" da educação, fornecendo as ferramentas para que indivíduos de grupos marginalizados possam localizar oportunidades de trabalho, acessar serviços públicos digitais e participar do debate democrático sem serem presas fáceis de manipulações. O bibliotecário assume a liderança como um Agente de Desenvolvimento Humano, transformando a biblioteca em um centro de capacitação permanente onde se aprende a aprender. A função social da Biblioteconomia é, portanto, reduzir o abismo entre quem "tem o dado" e quem "sabe o que fazer com ele".

Além disso, a liderança bibliotecária na sociedade do conhecimento exige uma Postura Ética frente à Propriedade Intelectual e ao Bem Comum. O argumento aqui é de advocacy informacional: o bibliotecário deve ser o defensor do domínio público e do acesso aberto, educando a sociedade sobre os perigos do cercamento do conhecimento por patentes e direitos autorais abusivos. Ele promove a cultura do compartilhamento e da colaboração (Open Source, Open Data), garantindo que a informação permaneça como um bem público global. O profissional da informação é o guardião dos "Comuns Digitais", assegurando que a herança intelectual da humanidade não seja privatizada ou perdida nos labirintos de assinaturas digitais efêmeras.

Concluindo, a Competência em Informação é o que separa a Biblioteconomia de uma mera atividade administrativa de gestão de estoques. É o compromisso com a autonomia do sujeito. As bibliotecas que falharem em ser centros de educação para a literacia crítica serão varridas pela automação, mas aquelas que se consolidarem como espaços de mediação intelectual serão as instituições mais vitais para a preservação da liberdade em um mundo governado por dados. O bibliotecário é, em última análise, o professor da liberdade no território digital.

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