O argumento central que sustenta a emergência da Biblioteconomia de Dados como o novo paradigma da profissão é a obsolescência do modelo centrado exclusivamente no objeto bibliográfico impresso ou digital finalizado (o livro ou o artigo). Na atual economia do conhecimento e no contexto da Ciência Aberta (Open Science), o valor estratégico e intelectual migrou do produto final para o insumo: os dados brutos de pesquisa.
O argumento técnico é que bibliotecas que não incorporam a Gestão de Dados de Pesquisa (RDM - Research Data Management) em seu núcleo operacional deixam de ser centros de conhecimento para se tornarem depósitos passivos de arquivos mortos. O bibliotecário contemporâneo deve ser um engenheiro de fluxos informacionais, garantindo que o ciclo de vida dos dados — da sua concepção e coleta até o processamento, preservação e reuso — obedeça rigorosamente aos Princípios FAIR (Findable, Accessible, Interoperable, Reusable). Sem essa curadoria especializada e técnica, o conhecimento produzido pelas instituições torna-se um emaranhado de "lixo digital", inacessível, proprietário e impossível de ser replicado ou auditado.A primeira linha de raciocínio foca na arquitetura de metadados e na interoperabilidade semântica. Gerenciar dados de pesquisa não se limita ao armazenamento em servidores (o que seria mera função de TI); trata-se de garantir que o dado possua contexto e inteligibilidade para máquinas e humanos no longo prazo. O argumento técnico é que o bibliotecário de dados deve dominar esquemas de metadados complexos e granulares — como Dublin Core, DataCite, MODS ou vocabulários controlados específicos de domínios científicos (biomedicina, física, ciências sociais). Esse profissional atua na modelagem de repositórios digitais de dados, implementando identificadores persistentes (DOIs, ORCIDs, Handles) que asseguram a proveniência e a integridade da informação. Essa atuação retira o bibliotecário da periferia administrativa e o coloca no centro neurálgico da estratégia de pesquisa: ele é o guardião que evita a "amnésia institucional", assegurando que o investimento em pesquisa não se perca por obsolescência de formatos ou falta de documentação técnica (metadados de preservação).
Em segundo lugar, a Biblioteconomia de Dados é o pilar fundamental da Reprodutibilidade Científica e da Governança Ética da Informação. Em um cenário global assolado por crises de credibilidade na ciência e pela proliferação de resultados fraudulentos ou não replicáveis, a curadoria de dados atua como um mecanismo de validação e transparência. O argumento estratégico é que o bibliotecário deve liderar a criação de Planos de Gestão de Dados (PGD), instrumentos que definem, antes mesmo do início da pesquisa, como os dados serão protegidos, anonimizados (em conformidade com a LGPD e GDPR) e, eventualmente, compartilhados. Isso transforma a biblioteca em um Hub de Integridade Acadêmica, onde a gestão técnica do dado assegura que a ciência seja transparente, auditável e socialmente responsável. O bibliotecário de dados atua como um mediador entre o pesquisador, as agências de fomento (que hoje exigem a abertura de dados) e a comunidade global, garantindo que a soberania informacional da instituição seja preservada.
Além disso, a transição para este modelo exige que o bibliotecário possua competências em curadoria digital e preservação lógica. Não basta salvar um arquivo; é preciso garantir que o software e o ambiente operacional para interpretá-lo ainda existam daqui a 50 anos. O argumento é de resiliência histórica: a biblioteca moderna deve ser capaz de gerenciar a fragilidade dos suportes digitais com o mesmo rigor com que gerenciava a acidez do papel no passado. Isso envolve o domínio de técnicas de emulação, migração de formatos e o uso de ferramentas de análise de dados (como Python ou R) para auxiliar pesquisadores na organização de grandes volumes de informação (Big Data). A biblioteca deixa de ser um local de silêncio e consulta para se tornar um laboratório ativo de engenharia do conhecimento.
Concluindo, a Biblioteconomia de Dados representa o golpe final na visão romântica e passiva do profissional do livro. Trata-se de uma disciplina de gestão de ativos intelectuais brutos. As organizações, universidades e centros de pesquisa que falharem em integrar bibliotecários de dados em seus processos de governança sofrerão de uma ineficiência estrutural severa, perdendo a capacidade de reutilizar seu próprio conhecimento, falhando em compliance regulatório e permanecendo invisíveis no ecossistema global de ciência de alto impacto.
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