O argumento central que sustenta a implementação de Makerspaces (espaços de fabricação e criação) em bibliotecas é a superação da dicotomia entre "teoria" e "prática". Por séculos, a biblioteca foi o templo do conhecimento registrado — o lugar onde se buscava a informação para, posteriormente, aplicá-la em outro lugar. O argumento técnico contemporâneo é que a biblioteca deve ser o ponto de convergência total: o local onde a informação é acessada, processada e imediatamente transformada em artefatos tangíveis ou soluções digitais. Ao integrar impressoras 3D, cortadoras a laser, kits de robótica, ferramentas de marcenaria e laboratórios de mídia, a Biblioteconomia deixa de gerenciar apenas o "saber" e passa a gerenciar o "fazer".
Isso redefine a biblioteca como uma infraestrutura de inovação aberta, democratizando o acesso a meios de produção de alta tecnologia que, de outra forma, seriam restritos a elites industriais ou acadêmicas.A primeira linha de raciocínio foca na aprendizagem experiencial e na alfabetização técnica (Transliteracia). O papel do bibliotecário no Makerspace não é o de um instrutor técnico de máquinas, mas o de um mediador da informação aplicada. O argumento é de profundidade cognitiva: o conhecimento retido através da leitura é potencializado exponencialmente quando o usuário precisa resolver problemas reais de engenharia, design ou programação para concluir um projeto físico. O bibliotecário atua na curadoria de recursos — manuais técnicos, bases de dados de patentes, normas da ABNT/ISO e tutoriais especializados — conectando o fluxo de informação ao fluxo de fabricação. Isso transforma a biblioteca em um catalisador de habilidades para a economia do século XXI, onde a capacidade de prototipar ideias rapidamente é mais valiosa do que a simples memorização de conceitos.
Em segundo lugar, os Makerspaces nas bibliotecas são ferramentas fundamentais de Justiça Social e Empoderamento Econômico. Em comunidades periféricas ou sub-representadas, o acesso a um laboratório de fabricação digital gratuito pode ser o diferencial entre a exclusão tecnológica e a inserção no mercado de trabalho de alto valor agregado. O argumento estratégico é que a biblioteca atua como uma incubadora social. Ao oferecer as ferramentas e a mediação da informação, a instituição reduz as barreiras de entrada para o empreendedorismo local e para a invenção comunitária. Não se trata apenas de "brincar com tecnologia", mas de fornecer os meios para que a comunidade possa imprimir peças de reposição, criar próteses de baixo custo, desenvolver dispositivos de IoT (Internet das Coisas) para agricultura urbana ou produzir conteúdos multimídia de alta qualidade. A biblioteca torna-se, portanto, um motor de soberania tecnológica.
Além disso, a gestão de um Makerspace impõe ao bibliotecário novos desafios de Propriedade Intelectual (PI) e Segurança Cibernética. O argumento aqui é de governança ética da criação: à medida que os usuários criam novos produtos dentro da biblioteca, surgem questões complexas sobre quem detém os direitos autorais ou as patentes. O bibliotecário deve estar apto a orientar sobre licenças Creative Commons, registros de patentes e o uso ético de softwares de código aberto. Além disso, a gestão da infraestrutura de rede desses espaços exige um rigor técnico para evitar que os dispositivos de fabricação sejam vetores de ataques ou que a privacidade dos projetos dos usuários seja comprometida. A Biblioteconomia, neste contexto, expande-se para a gestão de ativos criativos em tempo real.
Concluindo, a integração de Makerspaces é a resposta da Biblioteconomia à desmaterialização do acervo físico. Se a informação está na nuvem, a biblioteca física deve oferecer o que o meio digital não pode: a materialidade, a ferramenta e a colaboração presencial. As instituições que resistirem a esta transformação e continuarem a focar exclusivamente no silêncio e na custódia de papel serão percebidas como museus da informação, enquanto as bibliotecas "maker" se consolidam como as verdadeiras oficinas da inteligência coletiva e do progresso econômico local.
Nenhum comentário:
Postar um comentário