O argumento central que sustenta a relevância dos Repositórios Institucionais (RIs) e do Acesso Aberto (Open Access) é a necessidade de romper com o ciclo de dependência financeira e restrição de conhecimento imposto pelas grandes editoras científicas. Por décadas, as universidades produziram conhecimento com financiamento público, cederam os direitos autorais gratuitamente para editoras privadas e, em seguida, as bibliotecas dessas mesmas universidades precisaram pagar assinaturas milionárias para ler o que seus próprios pesquisadores escreveram. O argumento técnico contemporâneo é que a biblioteca deve assumir o papel de nó de publicação e preservação, utilizando o Repositório Institucional como uma ferramenta de soberania informacional.
O bibliotecário deixa de ser um mero gestor de coleções adquiridas para se tornar um gestor de ativos intelectuais da própria instituição, garantindo que o conhecimento circule sem barreiras de paywall.A primeira linha de raciocínio foca na Visibilidade, Impacto e Preservação de Longo Prazo. Um Repositório Institucional não é apenas um site de downloads; é uma infraestrutura complexa de curadoria digital. O argumento técnico é que o bibliotecário deve garantir a interoperabilidade desses sistemas através do uso do protocolo OAI-PMH (Open Archives Initiative Protocol for Metadata Harvesting), que permite que os dados da instituição sejam "colhidos" por grandes bases globais como o Google Acadêmico e o portal brasileiro OASISBR. Ao gerenciar metadados granulares e garantir o uso de identificadores persistentes (como o Handle), o bibliotecário assegura que a produção acadêmica seja encontrável e citável permanentemente. Isso aumenta o fator de impacto da instituição e protege o investimento em pesquisa contra a volatilidade dos links e o fechamento de editoras comerciais.
Em segundo lugar, a gestão de RIs exige que o bibliotecário atue como um especialista em Direito Autoral e Políticas de Autoarquivamento. O argumento estratégico é que o bibliotecário deve mediar a relação entre o pesquisador e as editoras, analisando as cláusulas de copyright (via bases como Sherpa/RoMEO) para identificar quais versões do trabalho (pre-print, post-print ou versão da editora) podem ser disponibilizadas em acesso aberto. O profissional da informação torna-se um arquiteto de políticas institucionais, redigindo os mandatos de Acesso Aberto que obrigam ou incentivam o depósito da produção. Isso transforma a biblioteca em um braço jurídico e estratégico da universidade, garantindo que a instituição cumpra as exigências de agências de fomento (como CAPES e FAPESP) que hoje condicionam o financiamento à abertura dos dados e resultados.
Além disso, a evolução dos RIs caminha para a integração com os Sistemas de Informação de Pesquisa (CRIS - Current Research Information Systems). O argumento aqui é de gestão de performance institucional: a biblioteca moderna utiliza os dados do repositório para gerar métricas de desempenho (bibliometria e altmetria), ajudando a universidade a entender sua colaboração internacional e o impacto social de sua ciência. O bibliotecário assume a função de analista de inteligência científica, fornecendo dados para tomadas de decisão de alto nível, desde a contratação de novos docentes até a identificação de áreas de excelência para parcerias industriais. A biblioteca, portanto, sai do papel de "custo" para se tornar uma ferramenta de "inteligência estratégica".
Concluindo, os Repositórios Institucionais são o baluarte da resistência contra a mercantilização excessiva do conhecimento. Bibliotecas que não gerenciam de forma proativa sua própria produção intelectual estão permitindo que o capital intelectual de sua comunidade seja privatizado por terceiros. As instituições que investirem em repositórios robustos e em profissionais capacitados para geri-los estarão na vanguarda da Ciência Aberta, garantindo que o conhecimento retorne à sociedade de forma democrática e imediata, cumprindo assim o papel social último da ciência.
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